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Google e Amazon emitem mais CO2 do que nunca, e a culpa é da IA

André Henrique

André Henrique

3 de julho de 2026 · 9 min de leitura

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Ilustração do post: Google e Amazon emitem mais CO2 do que nunca, e a culpa é da IA

Dois gigantes da tecnologia publicaram seus relatórios ambientais na mesma semana, e o recado para quem trabalha com tecnologia é direto. A inteligência artificial está consumindo mais energia e gerando mais emissões do que qualquer outra inovação digital antes dela.

O Google divulgou que suas emissões totais subiram 18% em 2025, chegando a 14,5 milhões de toneladas de CO2 equivalente considerando apenas as emissões baseadas em ambições internas. Em números absolutos, a conta total é de 18,8 milhões de toneladas quando se inclui todos os escopos. O crescimento das emissões nos últimos cinco anos ultrapassou 82%.

A Amazon, por sua vez, registrou alta de 16% nas emissões no mesmo período, atingindo 80,85 milhões de toneladas de CO2 equivalente. Esse volume supera países inteiros. A Amazon é hoje responsável por mais emissões do que países como Irlanda, Suécia e Portugal.

Os dois números representam a maior alta anual desde que ambas as empresas começaram a publicar relatórios de sustentabilidade. E isso não é coincidência: os dados mostram que o principal motor desse crescimento é a corrida pela inteligência artificial.

O consumo de energia do Google já rivaliza com países inteiros

O relatório do Google mostra que o consumo de eletricidade da empresa cresceu 37% em 2025. Foi o maior aumento da história da companhia. Desde 2019, o consumo total de energia da empresa mais que triplicou, um crescimento que superou 250%.

Só os data centers da empresa consumiram 42 milhões de MWh em 2025, contra 30,6 milhões no ano anterior. Para efeito de comparação, o Google hoje consome tanta eletricidade quanto a Grécia inteira. Se fosse um país, estaria entre os 100 maiores emissores do planeta, entre Costa do Marfim e Panamá.

A empresa declarou que a expansão da infraestrutura de IA está acontecendo mais rápido do que a descarbonização da rede elétrica. A frase da diretora de sustentabilidade do Google, Kate Brandt, é um resumo honesto da situação.

"A expansão de nossa infraestrutura de IA está ocorrendo mais rapidamente do que a descarbonização da rede elétrica."

Traduzindo: mesmo investindo bilhões em energia renovável, a velocidade com que novos data centers estão sendo construídos torna impossível compensar as emissões no curto prazo. É um problema de ritmo. A empresa corre para construir infraestrutura de IA ao mesmo tempo que corre para descarbonizar, e a primeira está ganhando.

Amazon adicionou mais de 1,2 GW de capacidade em um único trimestre

O caso da Amazon é ainda mais expressivo. A empresa declarou que em 2025 adicionou mais capacidade de data center globalmente do que qualquer outra companhia. Só no quarto trimestre, foram mais de 1,2 GW de nova capacidade.

A emissão de gases da Amazon oriunda da construção de data centers cresceu mais de 40% em um único ano. É a categoria que mais cresce dentro do relatório da empresa. Para se ter ideia, cada data center de grande porte consome energia suficiente para abastecer dezenas de milhares de casas.

A diretora de sustentabilidade da Amazon, Kara Hurst, reconheceu abertamente que o aumento da demanda pode desacelerar as ambições ambientais da companhia. Isso vindo de uma empresa que se comprometeu a atingir neutralidade de carbono até 2040.

Os números mostram um padrão claro. A infraestrutura física necessária para rodar modelos de IA (servidores, chips, sistemas de refrigeração, prédios inteiros) está crescendo mais rápido que a capacidade de torná-la limpa. E isso não é um problema exclusivo dessas duas empresas.

O problema não é só a energia elétrica

Um ponto importante que aparece nos dois relatórios é que o maior vilão não é a eletricidade em si. Google e Amazon são os maiores compradores corporativos de energia renovável do mundo. O Google, por exemplo, compensa 100% do consumo de eletricidade com renováveis há nove anos seguidos. A Amazon é a maior compradora corporativa de energia renovável pelo sexto ano consecutivo.

O problema real está nas emissões de Escopo 3. Essas são as emissões indiretas, que vêm da cadeia de suprimentos. E aqui a coisa fica mais complicada.

A fabricação de chips e servidores acontece majoritariamente na Ásia, onde a matriz energética ainda é fortemente baseada em carvão e gás natural. Cada GPU, cada chip de memória, cada placa-mãe tem uma pegada de carbono significativa antes mesmo de chegar ao data center para funcionar. Os produtos químicos usados na fabricação de semicondutores são gases de efeito estufa milhares de vezes mais potentes que o CO2.

O Escopo 3 do Google dobrou desde 2019. Só no último ano, cresceu 2,1 milhões de toneladas. A Amazon viu o mesmo fenômeno. A construção de novos data centers e armazéns, e os materiais necessários para isso (aço, concreto, cimento), disparou as emissões indiretas. O concreto e o aço estão entre os materiais mais poluentes do planeta, e alternativas de baixo carbono ainda não são viáveis em escala.

O paradoxo da IA que promete salvar o mundo enquanto polui

Existe uma ironia difícil de ignorar aqui. As mesmas empresas que mais vendem IA como ferramenta para combater as mudanças climáticas (otimizando redes elétricas, prevendo desastres naturais, reduzindo desperdícios) são as que mais estão emitindo para construí-la.

O relatório do Google dedica páginas inteiras a exemplos de como a IA está ajudando o meio ambiente. A otimização de rotas no Google Maps já evitou milhões de toneladas de emissões. O projeto Green Light reduz o tempo de carros parados no trânsito em semáforos inteligentes. Ferramentas de IA ajudam empresas a medir e reduzir seu próprio impacto ambiental.

Mas a realidade é que, neste momento, a conta não fecha. As emissões geradas pela construção da infraestrutura de IA superam as emissões que a IA ajuda a evitar. É um paradoxo que as próprias empresas reconhecem nos relatórios, mesmo que de forma indireta.

Isso não significa que a IA seja intrinsecamente ruim para o meio ambiente. Significa que estamos na fase mais custosa da adoção. Como a construção de uma rodovia antes que os carros comecem a trafegar. O investimento inicial é alto, e o retorno ambiental só vem depois.

O que isso significa para quem usa tecnologia no dia a dia

Se você é dono de pequena empresa, empreendedor ou profissional de tecnologia, essa história tem implicações práticas.

Primeiro, o custo da IA não é só financeiro. Cada consulta ao ChatGPT, cada imagem gerada, cada resumo de documento, cada análise de dados roda em data centers que consomem energia comparável a países inteiros. Isso significa que, à medida que a IA se torna mais presente nos negócios, a conta de energia da economia global inteira vai subir. E esse custo, de alguma forma, chega até o consumidor final.

Segundo, a pressão regulatória vem aí. Países da União Europeia já discutem exigir que empresas de tecnologia reportem o custo ambiental de cada modelo de IA. Se isso virar lei, o preço dos serviços de IA pode subir. E quem usa esses serviços precisa estar preparado para um cenário onde a IA não será tão barata quanto é hoje.

Terceiro, para quem está escolhendo ferramentas de tecnologia para o negócio, vale a pena considerar a eficiência. Nem toda tarefa precisa de um modelo de IA pesado rodando em nuvem. Soluções mais leves, específicas e otimizadas podem entregar o mesmo resultado com uma fração do custo energético. Um modelo local rodando em um notebook pode ser mais eficiente que uma API na nuvem para muitas tarefas.

O futuro imediato: mais emissões antes de menos

Analistas do setor não esperam que essa curva se inverta tão cedo. A demanda por IA continua crescendo. Google, Amazon, Microsoft e Meta estão construindo data centers em ritmo acelerado em vários continentes.

O Google investiu US$ 40 bilhões só no Texas, incluindo um campus que pode ser abastecido por uma usina a gás natural de 933 MW sem captura de carbono. Essa usina sozinha pode produzir 4,5 milhões de toneladas de CO2 por ano.

A empresa afirma que está diversificando suas fontes de energia com renováveis, nuclear avançada, fusão, geotérmica e armazenamento de longa duração. Mas essas soluções levam anos para ficar prontas. O relatório reconhece que o caminho para atingir as ambições climáticas não será linear.

Nos próximos relatórios ambientais de Meta e Microsoft, que devem sair nas próximas semanas, a expectativa é que o mesmo padrão se repita. A Microsoft, que anunciou planos de ser carbono negativa até 2030, também enfrenta pressão crescente por causa de seus investimentos em IA.

O que podemos aprender com isso

A história das emissões de Google e Amazon é um lembrete de que tecnologia não é uma solução mágica para tudo. Ela tem custos reais, tangíveis, e muitos deles são invisíveis para quem usa os produtos no dia a dia.

Para o empresário que está pensando em adotar IA no negócio, a lição não é abandonar a tecnologia, mas usá-la com consciência. Entender que cada ferramenta tem um custo, que nem toda automação precisa ser feita com o modelo mais pesado disponível, e que eficiência energética também é um diferencial competitivo.

No fim das contas, a tecnologia que vence não é a mais poderosa, mas a que faz mais com menos. E esse princípio vale tanto para data centers de bilhões de dólares quanto para o site de uma pequena empresa.


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Leia também: Automação para pequenas empresas guia prático

Fonte: Olhar Digital + TechCrunch + Ars Technica

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André Henrique

André Henrique

Engenheiro de Software em formação e criador da AH Digital Solutions. Obsessivo por automatizar processos, explorar IA e construir negócios digitais que façam sentido. Escrevo sobre o que aprendo no caminho — tecnologia real, sem marketing fake.