Alphabet perde US$ 225 bilhões após debandada de talentos de IA

O que aconteceu com a Alphabet na segunda-feira?
Na segunda-feira, 22 de junho, a Alphabet (controladora do Google) teve seu pior dia na bolsa em mais de um ano. As ações caíram 5%, o que representa uma perda de US$ 225 bilhões em valor de mercado. Foi o maior tombo diário já registrado para a empresa, superando até a queda de 7% de maio de 2025.
O estopim veio de uma combinação de eventos nos dias anteriores. Dois dos pesquisadores mais importantes de IA do mundo anunciaram que estavam saindo do Google para concorrentes diretos. E isso aconteceu num momento em que o mercado já estava de olho nos gastos astronômicos da empresa com infraestrutura de IA.
Para ter uma ideia do tamanho do tombo: US$ 225 bilhões é mais que o valor de mercado inteiro de empresas como Netflix, PayPal ou AMD. Em um único dia, a Alphabet destruiu mais valor do que a maioria das empresas de tecnologia vale por completo.
E as ações continuam em queda livre em junho, com uma desvalorização acumulada de 8,1% no mês.
Quem saiu e para onde foram
Os dois pesquisadores que deixaram o Google não são nomes comuns no noticiário de tecnologia. Eles são figuras centrais na história recente da inteligência artificial e a saída simultânea deles acendeu todos os alertas.
Noam Shazeer anunciou na quarta-feira (18/06) que estava indo para a OpenAI. Shazeer não é um engenheiro qualquer. Ele foi um dos coautores do artigo "Attention Is All You Need", de 2017, que introduziu a arquitetura Transformer. Esse paper é a base técnica de praticamente todo modelo de linguagem grande que existe hoje: GPT, Claude, Gemini, Llama. Todos derivam daquela ideia. Sem o Transformer, não existiria ChatGPT. É o artigo mais citado da década na área.
Antes disso, Shazeer já tinha construído o corretor ortográfico "Você quis dizer?" do Google, nos anos 2000. Ele tem duas décadas de contribuições que moldaram a internet como a conhecemos.
A história de Shazeer com o Google é, no mínimo, curiosa. Ele saiu da empresa em 2021 depois que o Google se recusou a lançar seu chatbot Meena, um precursor do que viria a ser o mercado de chatbots. Frustrado, fundou a Character.AI, que virou um sucesso entre o público jovem. Em 2024, o Google pagou US$ 2,7 bilhões basicamente para trazê-lo de volta e colocá-lo como co-líder do projeto Gemini. Menos de dois anos depois, ele postou três frases no X dizendo que estava indo para a OpenAI. Uma das mentes mais influentes da IA, que o Google pagou uma fortuna para recuperar, escolheu sair de novo.
John Jumper anunciou na sexta-feira (20/06) que estava deixando o Google DeepMind após 9 anos para se juntar à Anthropic. Jumper é o criador do AlphaFold, o sistema de IA que resolveu um dos maiores problemas da biologia: prever a estrutura tridimensional de proteínas a partir da sequência de aminoácidos. O AlphaFold já previu mais de 200 milhões de estruturas proteicas, um feito que acelerou pesquisas em doenças, desenvolvimento de medicamentos e biotecnologia. Em 2024, Jumper dividiu o Prêmio Nobel de Química com Demis Hassabis pelo trabalho. Perder um Nobel Prize winner em atividade é um golpe que nenhuma empresa quer tomar, quanto mais em plena guerra de talentos.
A reação do mercado foi imediata. Dan Ives, analista da Wedbush Securities, disse: "Perder o John é uma grande perda para o Google, não tem como adoçar isso." Gil Luria, da D.A. Davidson, foi direto: "As saídas de Noam Shazeer para a OpenAI e de John Jumper para a Anthropic em questão de dias levantam a preocupação de que o Google está perdendo a guerra por talentos na fronteira da IA."
O mercado está questionando US$ 141 bilhões
O que torna essa história ainda mais grave é o dinheiro envolvido. Desde outubro do ano passado, a Alphabet levantou US$ 141 bilhões em dívida e capital para financiar sua infraestrutura de IA. Para efeito de comparação, US$ 141 bilhões é mais que o PIB de países como Quênia ou Eslovênia. É o tipo de valor que você espera ver em orçamentos de guerra, não em uma empresa de tecnologia.
O mercado está começando a perguntar se esse dinheiro está construindo uma vantagem real ou só está inflando custos. Se os principais talentos estão saindo, se os concorrentes estão contratando as pessoas que construíram os sistemas mais importantes da empresa, vale a pena continuar investindo nesse ritmo? Ou a Alphabet está apenas bancando a corrida de infraestrutura enquanto perde o capital intelectual que deveria diferenciá-la?
A pergunta ficou ainda mais forte depois de uma entrevista que Satya Nadella, CEO da Microsoft, deu ao Wall Street Journal no domingo. Nadella disse que o mercado de IA está se "commoditizando", ou seja, os modelos estão ficando cada vez mais parecidos e intercambiáveis. Se qualquer grande empresa de tecnologia pode oferecer um modelo comparável, qual é a vantagem competitiva de gastar centenas de bilhões?
A Microsoft é a maior parceira da OpenAI e está, indiretamente, se beneficiando da saída de Shazeer do Google para a OpenAI. Mas a declaração de Nadella soa como um alerta para todo o setor, incluindo ele mesmo. Se o mercado de IA realmente está virando commodity, todos os hyperscalers estão no mesmo barco, com investimentos maciços e retornos incertos.
Os números são de chorar: a Alphabet planeja gastar entre US$ 175 bilhões e US$ 185 bilhões só em 2026 em CAPEX de IA. Se somar com Meta, Microsoft e Amazon, o investimento combinado passa de US$ 700 bilhões no ano. É o maior ciclo de investimento em infraestrutura da história da tecnologia. E o Google acabou de dar um sinal de que não está conseguindo reter as pessoas que deveriam transformar esse dinheiro em vantagem real.
O que isso significa para o mercado de IA
A debandada de talentos do Google escancara um problema maior. O mercado de IA está passando por uma transformação que vai afetar todo mundo que usa ou depende dessas tecnologias.
A guerra por talentos está mais acirrada do que nunca. Não se trata mais de contratar bons engenheiros. Empresas como OpenAI e Anthropic estão pagando pacotes que chegam a centenas de milhões de dólares para atrair nomes específicos. A aquisição de startups inteiras pelo talento dos fundadores (acqui-hires) virou prática comum. E tanto a Anthropic quanto a OpenAI anunciaram planos de abrir capital ainda este ano. Uma vez públicas, elas terão ainda mais recursos (ações, bônus, opções) para competir por talento. O Google, que já foi o destino dos melhores pesquisadores de IA do mundo, está vendo esse fluxo se inverter.
O modelo de negócios da IA ainda não está definido. Se os modelos realmente estão se commoditizando, como disse Nadella, a vantagem competitiva vai migrar para quem tem os melhores dados, a melhor distribuição ou a integração mais profunda com os usuários. Isso pode beneficiar empresas como a própria Microsoft, que tem Office, Azure e GitHub como canais de distribuição, mais do que empresas focadas exclusivamente em modelos de IA.
Os investimentos em infraestrutura também são uma aposta gigante. US$ 141 bilhões é muito dinheiro mesmo para o Google. Se o retorno sobre esse capital não vier no ritmo esperado, os acionistas vão cobrar. A saída de talentos justamente no momento em que a empresa mais precisa de inovação acendeu um alerta que não vai se apagar tão cedo.
O que as pequenas empresas devem observar
Para quem tem um negócio pequeno ou médio, essa disputa entre gigantes pode parecer distante, mas ela afeta diretamente o custo e a qualidade das ferramentas de IA que você usa no dia a dia.
Se os modelos se commoditizarem, os preços tendem a cair e a competição por assinantes vai aumentar. Isso é bom para o consumidor final. Ferramentas como ChatGPT, Claude e Gemini vão precisar brigar por você com preços mais baixos e funcionalidades melhores.
Por outro lado, se uma empresa concentrar talento e infraestrutura demais, pode haver menos diversidade de abordagens e mais dependência de um fornecedor só. É o velho risco de colocar todos os ovos na mesma cesta.
A tendência mais provável é um meio-termo. Ferramentas de IA vão continuar ficando mais baratas e acessíveis, mas a diferença entre uma ferramenta boa e uma excelente vai estar nos dados que ela usa e na qualidade da integração com seus processos, não no modelo por trás dela.
Para o empreendedor brasileiro, a recomendação é a mesma de sempre: teste, compare e não se case com nenhuma ferramenta. O mercado está mudando rápido demais para apostar tudo em um fornecedor só. Hoje o Google parece fragilizado, amanhã a OpenAI pode estar enfrentando seus próprios problemas de retenção. A vantagem real está em quem consegue se adaptar rápido.
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📖 Leia também: Como a inteligência artificial está mudando as ferramentas do dia a dia
Fonte: Olhar Digital, CNBC, Barron's, Medium
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André Henrique
Engenheiro de Software em formação e criador da AH Digital Solutions. Obsessivo por automatizar processos, explorar IA e construir negócios digitais que façam sentido. Escrevo sobre o que aprendo no caminho — tecnologia real, sem marketing fake.



